Surdocegos aprendem a velejar no litoral de SP

JÚLIA BARBON

Enquanto Gabriel Souza, 18, desliza os dedos sobre os cabos de aço e a superfície lisa do barco, o silêncio é absoluto. Essa é a forma como o jovem, que nasceu 100% surdocego, enxerga a embarcação de 25 pés (ou 7,5 metros) em que vai velejar.

O garoto é conduzido pelo instrutor Miguel Olio, 34, que criou em São Paulo o primeiro projeto de vela no Brasil para pessoas que têm essa deficiência múltipla: não enxergam nem escutam.

“Não existia uma proposta parecida, tive que inventar um método de comunicação com eles”, afirma o educador físico, especializado em atividades para deficiências sensoriais e físicas.

As saídas do projeto Sailing Sense acontecem desde 2007, cerca de uma vez por mês, na represa de Guarapiranga (zona sul) ou em Guarujá (a 86 km da capital). Os participantes aprendem a conduzir o barco sem nenhum tipo de adaptação.

“A vela é mais complexa e mais rica para desenvolver a comunicação, por exemplo, do que a canoagem, em que a pessoa só rema e não consegue usar as mãos para falar”, afirma Olio.

A aposentada Eulália Cordeiro, 51, gosta quando o vento está forte e, por isso, a viagem fica rápida. “O barco dá aquela arrancada”, diz, rindo.

Eulália e seus três irmãos nasceram com Síndrome de Usher, porque seus pais eram primos –a mutação genética é uma das principais causas da surdocegueira. Não há estatística oficial que mensure essa população no país.

Até os 19 anos, Eulália tinha 50% da visão; hoje, diferencia apenas o claro do escuro. Também não escuta do lado esquerdo, mas usa um aparelho auditivo e, dessa forma, consegue ouvir quando se fala mais alto –técnica chamada de fala ampliada. Por isso, conversa normalmente.

MÃOS QUE FALAM

Mesmo para quem enfrenta mais barreiras, como Gabriel, que conversa por libras tátil (com toques na mão), é possível achar uma saída. “A ideia é não adaptar nada, só a comunicação, para que eles sejam o mais independentes possível”, diz o instrutor.

“Para competições paraolímpicas, criaram barcos adaptados. São lindos, mas assim você não inclui ninguém, você segrega, porque só aquele barco é acessível para eles”, afirma ele.

Uma batidinha no pé ou no ombro direito significa que o condutor tem que virar o leme (que funciona ao contrário) para a esquerda.

Para ir reto, basta um toque nos dois ombros ao mesmo tempo. Um intérprete vai sempre junto, traduzindo e descrevendo o que se vê.

 

Algumas funções, porém, como preparar o barco ou subir a vela, não são feitas pelos surdocegos. “São coisas mais complicadas, precisa de conhecimento técnico.”

Já no quesito sensibilidade, eles têm mais facilidade. “O vento mudou de direção”, disse o carroceiro Mário Henrique do Carmo, 36, que não enxerga, enquanto velejava em frente à baía de Santos.

É a terceira vez que ele participa do projeto, que atende instituições como as escolas Ahimsa e Adefav (para múltipla deficiência) e o Grupo Brasil (de apoio ao surdocego).

Algumas saídas têm a ajuda de velejadores com deficiência do clube Superação –de onde saiu o ex-goleiro Bruno Landgraf, que ficou paraplégico, disputou a Paraolimpíada de Londres e irá à Rio-2016 entre os dias 12 e 17.

Como é feita com entidades sociais, a atividade, com custo de cerca de R$ 275 por pessoa, é financiada pelo próprio instrutor, que está em busca de patrocínio. Outros R$ 1.000 do transporte a Guarujá foram cobertos por um voluntário e pela escola Ahimsa.

Miguel Olio já teve de abandonar um outro projeto para surdocegos, de volteio –tipo de ginástica sobre um cavalo em movimento–, por falta de verba. “É sempre o mesmo problema.” Enquanto puder, porém, vai continuar com a vela. “Não vejo um fim. Ainda há muito a evoluir.”

Quando Gabriel acaba de conhecer o barco, sua intérprete traduz: “Emoção, muita emoção, foi isso que ele disse que sentiu”.

 

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/09/1810122-com-uso-da-sensibilidade-surdocegos-aprendem-a-velejar-no-litoral-de-sp.shtml